Política

Vereadoras são hostilizadas por colegas de plenário em Vitória e na Serra

Por Regional ES

23/06/2022 às 07:20:22 - Atualizado h√°
As vereadoras Karla Coser (PT), de Vitória, e Raphaela Moraes (Rede), da Serra, durante sessões no dia 22 de junho. Crédito: Reprodução/ YouTube Câmara de Vitória e Câmara da Serra

Em cenas que se tornaram corriqueiras nos Legislativos municipais, as vereadoras de Vitória Karla Coser (PT) e da Serra Raphaela Moraes (Rede) foram hostilizadas por colegas do sexo masculino em plen√°rio, nesta quarta-feira (22). Os episódios se somam a outros exemplos de viol√™ncia pol√≠tica de g√™nero ocorridos contra mulheres no exerc√≠cio dos seus mandatos. Na C√Ęmara de Vitória, a petista virou alvo do vereador Luiz Emanuel (Cidadania) e do presidente da Casa, Davi Esmael (PSD), após manifestar-se a respeito do caso envolvendo uma crian√ßa de 11 anos v√≠tima de estupro, em Santa Catarina, que ficou gr√°vida e foi impedida pela ju√≠za que atuou no processo de fazer o aborto previsto na legisla√ß√£o penal em casos de viol√™ncia sexual.

ANUNCIO 01

As manifesta√ß√Ķes dos vereadores n√£o ficaram concentradas na diverg√™ncia de opini√£o com a colega. Eles questionaram a legitimidade da vereadora para falar sobre o assunto e utilizaram, para isso, termos como "voc√™ é uma menina mimada", "voc√™ é uma mulher que se faz de coitada" , "voc√™ n√£o tem no√ß√£o", "quem é voc√™, vereadora? Voc√™ n√£o é m√£e".

Karla Coser usou as redes sociais para se manifestar sobre o episódio. "Aos insultos e desrespeitos que escutei hoje só tenho uma coisa a dizer: tô muito distante de me fazer de coitadinha. N√£o sou uma coitada e nunca vou deixar de usar o espa√ßo que tenho em plen√°rio pra denunciar os abusos e viol√™ncias que acontecem com as mulheres", publicou no Twitter.

Para a petista, quando a chamam de mimada "é porque n√£o t√™m nenhum argumento para contrapor aos meus". O termo foi usado por Luiz Emanuel enquanto a vereadora respondia ao presidente da C√Ęmara sobre a sua legitimidade para se pronunciar sobre o assunto, como mulher, feminista e representante eleita pelos moradores da Capital capixaba.

"Homens costumam mesmo fazer isso. E eu seguirei firme, de cabeça erguida sabendo do tamanho da minha responsabilidade em construir uma sociedade mais justa pras mulheres", declarou Karla Coser.

Publicidade

Na C√Ęmara da Serra, a vereadora Raphaela foi chamada de "oportunista" e "hipócrita" pelo vereador Pablo Muribeca (Podemos) depois de relatar uma situa√ß√£o vivida em uma unidade de sa√ļde do munic√≠pio, onde foi para se vacinar.

"A vereadora usa de oportunismo para se promover e despromover uma profissional maravilhosa. N√£o vem contar mentira. N√£o vou aceitar injusti√ßa e vou fazer uma nota de rep√ļdio a Vossa Excel√™ncia. Voc√™ quer receber respeito, d√° respeito. Agora quer chegar com arrog√Ęncia e prepot√™ncia?", atacou Muribeca da tribuna da Casa.

Em seguida, o vereador Sergio Peixoto (Pros) subiu à tribuna da C√Ęmara da Serra e gritou "se controla vereadora, pelo amor de Deus" e repetiu: "est√° descontrolada, vereadora".

A vereadora Elcimara Loureiro (PP) e o vereador Anderson Muniz (Podemos) reagiram. Enquanto a primeira denunciava a agress√£o à colega, Muniz se levantou e afirmou: "n√£o vou admitir falta de respeito com as mulheres nessa Casa".

Raphaela Moraes afirmou que toda essa situa√ß√£o a deixou muito chateada, principalmente por manter uma rela√ß√£o cordial com o vereador Muribeca. "S√£o coisas que acontecem na vida que d√£o vontade até de desistir. Meu discurso era sobre o programa de castra√ß√£o do munic√≠pio. Eu fui vacinar em um bairro próximo da C√Ęmara da Serra, uma pessoa me reconheceu e come√ßou a fazer den√ļncia de que estava faltando √°gua, n√£o tinha √°lcool em gel, n√£o tinha papel toalha. Sou vereadora e é minha fun√ß√£o mostrar", sustentou.

"Eu só quis falar sobre o que ocorreu. A minha m√£e estava descendo ao plen√°rio e quando fui receb√™-la o vereador ficou gritando 'descontrolada'. A gente sente até um pouco de medo de se pronunciar. Eu raramente vou às unidades de sa√ļde, foco muito na pauta de prote√ß√£o aos animais. Meu interesse era só tomar a vacina e acabei passando por todo esse transtorno. É como se fosse para ter a gente ter medo de usar a fala. N√£o quero passar por cima de ninguém. Violentaram o meu direito e quem cometeu viol√™ncia é alguém que gosto", acrescentou a vereadora da Rede.

Publicidade

INVISIBILIDADE

"Como representantes eleitas, quando essas mulheres s√£o silenciadas, muitas outras s√£o silenciadas". A afirma√ß√£o é da professora de Ci√™ncia Pol√≠tica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e do programa de pós-gradua√ß√£o da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) Mayra Goulart, que pesquisa sobre viol√™ncia pol√≠tica de g√™nero.

A professora ressalta que esse tipo de viol√™ncia e silenciamento ocorrem de diversas formas para as mulheres que est√£o na pol√≠tica. A caracteriza√ß√£o dos tipos e formas dessa viol√™ncia faz parte das suas pesquisas, cujo objetivo é ajudar a distinguir e a identificar as situa√ß√Ķes em que isso ocorre de maneira mais clara, para que possam ser propostas regras e legisla√ß√Ķes espec√≠ficas para combater a viol√™ncia pol√≠tica de g√™nero.

"Isso ocorre de forma sistemática, seja invisibilizando quando elas falam, seja questionando a autoridade delas para falar, de maneira direta ou indireta, como por exemplo quando questiona se ela entende determinada regra", esclarece a cientista política.

Para a professora, situa√ß√Ķes como as ocorridas nas C√Ęmaras de Vitória e da Serra nesta quarta-feira só agravam a dificuldade vivenciada pelas mulheres com mandato para conquistarem espa√ßo nos parlamentos e reproduzem um formato em que se forma um bloco de homens contra mulheres.

"Mulheres ocupam menos espa√ßos nas estruturas de poder, nos cargos de relatorias, de Mesa Diretora, nas Comiss√Ķes de Constitui√ß√£o e Justi√ßa, até mesmo em cargos de l√≠deres de bancadas. Isso é uma forma de contornar o voto popular, pois mesmo quando as mulheres s√£o eleitas, elas s√£o distanciadas de espa√ßos que possam dar mais visibilidade", destaca a professora.

Fonte: Gazeta Online
Comunicar erro
Regional ES

© 2022 Regional ES - Todos os direitos reservados.

•   Política de Cookies •   Política de Privacidade    •   Contato   •

Regional ES